As ações da Intel (INTC) fecharam em queda de 5,7% nesta segunda-feira, aprofundando um cenário pessimista para a gigante dos semicondutores. O movimento de baixa contrasta com o otimismo geral do mercado, visto que o S&P 500 avançou 0,5% e o Nasdaq Composite subiu 0,4% no mesmo dia. A desvalorização dos papéis não é um evento isolado, mas sim a continuação de uma sangria que já havia custado quase 20% do valor da empresa na sexta-feira anterior, logo após a divulgação dos resultados trimestrais.
Embora a companhia tenha, tecnicamente, superado as estimativas de lucro para o quarto trimestre, a reação negativa dos investidores foi desencadeada por um alerta da diretoria: “restrições internas agudas de fornecimento” devem deprimir as vendas e os lucros nos próximos meses. As projeções futuras estabelecidas pela empresa ficaram bem aquém do que Wall Street esperava.
O gargalo da produção
O problema central da Intel no momento não é a falta de demanda por seus produtos, mas sim a incapacidade de entregá-los. O Diretor Financeiro, David Zinsner, admitiu que a empresa não possui capacidade instalada suficiente para atender aos pedidos atuais. Esse cenário representa um revés frustrante para a visão do CEO Lip-Bu Tan, sugerindo que, embora a tecnologia da Intel esteja evoluindo, sua eficiência de manufatura continua sendo um obstáculo significativo.
Atualmente, a companhia opera perto da capacidade total, mas enfrenta dificuldades com o rendimento da produção (yields) à medida que tenta escalar suas tecnologias de fabricação mais avançadas.
A pergunta de 90 bilhões de dólares
Diante desse cenário, analistas e veteranos da indústria — incluindo fontes com décadas de experiência no “Silicon Forest” — levantam uma questão crucial: como a Intel gastou quase US$ 90 bilhões em despesas de capital (capex) nos últimos quatro anos e ainda não possui capacidade adequada para suprir o mercado?
Para observadores atentos, a justificativa de que leva tempo para novas instalações entrarem em operação não se sustenta completamente quando se analisa cada investimento individualmente. Estima-se que apenas 10% dos wafers (bolachas de silício) de 2025 serão produzidos com base nesse capex recente. Essa discrepância gerou uma fúria palpável nas últimas conferências de resultados. Analistas renomados, como Stacy Rasgon da Bernstein, fizeram perguntas diretas sobre como a gestão permitiu tal falha de planejamento.
Impacto em Hillsboro e a “silêncio” da empresa
A crise corporativa tem reflexos visíveis em comunidades como Hillsboro, no Oregon. No complexo Gordon Moore Park em Ronler Acres — rebatizado em 2022 em homenagem ao cofundador da empresa — o estacionamento já não fica tão cheio quanto antes. A região sente as oscilações nos empregos, no trânsito e no mercado imobiliário.
A situação é agravada pelo fato de a Intel ter demitido dezenas de milhares de funcionários recentemente, sob a bandeira de que precisava de “menos pessoas, porém melhores”. No entanto, mesmo com essa suposta otimização da força de trabalho, a empresa não conseguiu antecipar uma mudança importante no mercado e falhou em ter a produção pronta para suportar a demanda. O resultado foi uma venda brutal de ações e um clima de incerteza sobre a competência da atual liderança em resolver os problemas no curto prazo.
Para onde foi o dinheiro?
Para entender o buraco financeiro, é necessário olhar para os detalhes técnicos e geográficos dos investimentos, especialmente no Arizona. A Intel está gastando cerca de US$ 30 bilhões nas fábricas (Fabs) 42, 52 e 62 em Chandler.
A Fab 42 foi adaptada para ferramentas de litografia ultravioleta extrema de alta abertura numérica (HNA EUV) em 2022. Já a Fab 52 foi concluída em 2024, recebendo suas primeiras ferramentas em fevereiro de 2025. Ambas formam a base para o nó de processo “Intel 18A”, a grande aposta da empresa que utiliza tecnologias de transistores Gate-All-Around e fornecimento de energia traseiro (Back Side Power).
A análise minuciosa dos relatórios financeiros (Form 10-K) sugere que a Fab 52 passou de “construção em andamento” para um ativo totalmente implantado, o que alterou o balanço em cerca de US$ 15,9 bilhões. Contabilmente, isso gerou um aumento doloroso nas despesas de depreciação já no segundo trimestre do ano passado. O problema é o descompasso temporal: a Intel começou a pagar a conta da depreciação antes de ter a receita compensatória dos processadores Panther Lake, previstos apenas para o final de 2025.