CTG Brasil se prepara para explosão de clientes no mercado livre de energia

A implantação do SAP S/4HANA na CTG Brasil, uma das líderes da geração de energia 100% limpa, é o principal projeto de tecnologia no grupo mundial de desenvolvimento e operação de usinas hidrelétricas e parques eólicos de grande escala. A companhia acabou de fazer o go live, e o próximo passo é levar parte do time do Brasil para a China para preparar o time de lá para a implantação global do S/4HANA. Em conversa com Cristina Palmaka, presidente da SAP América Latina e Caribe, o vice-presidente corporativo da CTG Brasil, José Renato Domingues, contou como a subsidiária brasileira está se preparando para a explosão de clientes livres.

“Nossa meta para os próximos 18 meses é crescer 40% da nossa capacidade em eólica e solar. Ao fazer isso, vamos ter de estar preparados para um novo mercado que está vindo. O mercado de energia não está só se sofisticando do ponto de vista de transações digitais, mas vai abrir muito mais”, disse Domingues. “Hoje, temos por volta de mil clientes livres que compram energia no Brasil, e a expectativa é que em 12, 18 meses tenhamos 100 mil. De mil para 100 mil, a forma de comercializar ou transacionar energia será diferente”, enfatizou.

O segundo passo, depois da etapa dos 100 mil, é o mercado chegar a algumas dezenas de milhões de clientes livres, aqueles que podem comprar diretamente com agentes geradores e comercializadores, sem ficarem restritos a concessionárias. Com esse cenário, ressaltou Domingues, o jogo passa a ser quase 100% digital. “Muito do que temos de expectativa e que foi parte da nossa decisão de caminhar para o SAP, de montar infraestrutura toda digital agora, é para nos prepararmos para este mundo digital. E ele não é só interno, não é só sistema de gestão, ele é interativo com cliente, fornecedor, com o mercado de forma geral”, explicou. 

Com mil clientes potenciais, a segmentação não é tão necessária. Contudo, quando se expandir para dezenas de milhões, a companhia terá de ter uma clareza enorme de como vai empacotar seus produtos e serviços de energia. “Isso vai demandar muita inovação, muita flexibilidade e capacidade de adaptação, que só virá quando o mindset digital estiver instalado, e ele não existe, se não tiver ferramentas digitais”, detalhou Domingues. “Muito do que estamos terminando agora na implantação tem a ver com essa criação de uma cultura digital, de mindset digital, da preparação da CTG para este novo ambiente que está vindo nos próximos 24 meses e que vai ser muito interessante de ver, de acompanhar e, obviamente, progredir no meio desta explosão que vamos ter de oportunidades na área de energia”, acrescentou.

Implantação na pandemia

A adoção do sistema de gestão SAP S/4HANA no Brasil ocorreu durante a pandemia da Covid-19, com o kick off do projeto sendo feito de forma totalmente remota. A partir do Brasil, o projeto vai ser base para implantações no grupo, começando pela CTG International em Hong Kong e depois na sede da China Three Gorges Corporation (CTG), em Pequim. “Isso faz da gente uma referência e traz uma baita responsabilidade, obviamente”, contou o VP. 

A primeira onda do projeto já foi entregue, e a CTG Brasil começará a segunda onda em breve, cobrindo todas as áreas possíveis que o produto é capaz de cobrir e expandindo depois para as unidades da CTG fora do Brasil e fora da China também.

O início da implantação de forma remota demandou forte comprometimento de todos os envolvidos, do time interno a parceiros. “Trabalhamos como um time único, produzindo de forma colaborativa. E, a cada passo conquistado do projeto, celebramos, ainda que de maneira remota. As pessoas recebiam kits para celebrar em casa, faziam festas remotamente. Teve muito compartilhamento dos resultados e sucesso”, contou o VP.

Assim que foi possível, seguindo os protocolos de segurança, os profissionais começaram a retornar, com o time trabalhando alguns dias no escritório. A última fase do projeto está ocorrendo com todos trabalhando 100% presencialmente. 

Diferentemente da TI, área na qual os profissionais puderam trabalhar de casa, a parte mais difícil foi com relação às equipes que ficam nas usinas, relatou José Renato Domingues. “Montamos uma operação e fomos a primeira empresa do Brasil a fazer isso – e depois dividimos com outras empresas o projeto que  fizemos”, disse. “Só fomos os primeiros a fazer pelo fato de termos acionista chinês, que estava três meses na frente. Levamos as pessoas que trabalhavam juntas para morarem juntas. Elas iam para a usina e voltavam para as casas e pousadas que alugamos; passavam por esquema de teste diário, um cuidado com elas para garantir que o grupo estivesse protegido e não se contaminasse”, detalhou.

Os cuidados foram expandidos às famílias. Com aqueles profissionais isolados por 60, 90 dias, era preciso garantir que os familiares ficassem bem. Domingues relatou que a CTG foi buscar nos protocolos das petrolíferas, que levam os profissionais para plataformas, para aprender com elas como é feito. “Assumimos a responsabilidade de cuidar da saúde, das compras do supermercado e de farmácia das famílias de cada um deles para garantir que estivessem bem. Comunicação entre a gente e a família era online e a distância; e tinha uma equipe de psicólogos que atendia os familiares todos os dias”, acrescentou.  

Gestão conectada à análise de dados 

A CTG tem 17 usinas hidrelétricas no Brasil e 11 parques eólicos. Dessas usinas, há um conjunto que é bem antigo, construído na década de 1970 e que está sendo modernizado fisicamente. O processo inclui tirar os equipamentos de dentro da usina e refazer mecânica e eletricamente. A empresa está aproveitando a mudança para incorporar em cada equipamento entre 450 e 500 sensores. 

“A hora que a gente tiver essas 34 máquinas, turbinas, de volta às usinas, vamos ter uma capacidade de geração de dados incrível para manutenção preditiva, para machine learning, e tudo isso vai ser consolidado em um centro que vai operar tantos as usinas hidrelétricas quanto os parques eólicos de um único local”, adiantou José Renato Domingues.

Através dos dados, a CTG aumentará sua capacidade de planejamento e ganho de eficiência. “Só com esse movimento que a gente fez até agora de uma das usinas, que é Jupiá, já teve um ganho de quase quatro megawatts. E a modernização está só no começo. É um projeto de dez anos, com R$ 3 bilhões a serem investidos nesse período. Isso vai trazer não só modernidade, capacidade de gestão a distância e digital, mas também mais energia disponível em um mesmo ativo sem precisar mudar o ativo”, enfatizou. 

A empresa vai conectar as máquinas com sistema de dados e com o sistema eficiente. Com isso, também está passando por uma mudança de mentalidade dos engenheiros. Há um grupo de engenheiros chineses trabalhando na modernização, porque lá fora eles já operam usinas digitais.  

ESG

Falando sobre as práticas de sustentabilidade, José Renato Domingues ressaltou que a empresa é muito grande para não ter esta preocupação. Para exemplificar, disse que a soma das bordas de reservatório e de rios que estão sob a responsabilidade da CTG chega a 8.350 quilômetros. “É o equivalente à costa brasileira, é como se a gente tivesse que gerenciar a costa brasileira inteira. Nessas bordas de reservatório você tem mata, água, mata ciliar, você tem nascentes de rios. Tem de fazer proteção patrimonial para não ter invasão, não ter uso inadequado; é uma responsabilidade enorme e, obviamente, não dá para ter gente patrulhando isso. Temos drone, helicóptero, satélite, e todo tratamento de imagem é feito  por uma equipe da área patrimonial”, explicou.

No âmbito social, a companhia está engajada para envolver as comunidades em volta de onde tem presença, como reservatórios que são grandes atrativos turísticos. Domingues disse que há um estímulo ao turismo sustentável nas represas para ser gerador de renda e de emprego. “Ao capacitar, você fixa esta população gerando renda local”, justificou. 

Com relação à governança, Domingues disse que a subsidiária brasileira está caminhando para um novo modelo de governança, com a criação no Brasil de um conselho de administração. “Já temos um conselheiro independente aqui, brasileiro, e estamos replicando esse modelo na CTGI em Hong Kong. É, de novo, o Brasil servindo de inspiração para a corporação.”