Gleiser: pandemia é o ponto de mutação para repensar a ética das empresas

O futuro insere, cada vez mais, a automação no cenário corporativo digital, mas é preciso pensar na integração das tecnologias com o ser humano e o planeta.

A pandemia tornou flagrante a fragilidade do ser humano enquanto espécie e derrubou a visão paradisíaca desenvolvida na Era Industrial da supremacia humana sobre a natureza. Esse foi um dos principais recados do físico, astrônomo e pensador científico Marcelo Gleiser durante sua participação no SAP NOW 2020.

Keynote do SAP NOW no segundo dia do evento, Gleiser mostrou o lado mais humano da ciência na sessão “A Humanidade Reinventada: como 2020 pode ser o ponto de virada da humanidade”, que teve a participação da jornalista Patricia Maldonado.

“Esse vírus, com 132 nanômetros de diâmetro, é um catalisador, pelo menos espero, dessa revolução meio que espiritual sobre nossa posição no mundo natural. Temos que começar a entender o mundo a partir de uma relação simbiótica com a Terra e com todos os seres vivos. Se isso acontecer, com certeza, as empresas vão seguir o mesmo caminho”, afirmou Gleiser.

Segundo o cientista, as empresas estão começando a entender a urgência dessa transformação e mudando sua relação com os consumidores, que sempre estiveram em uma posição mais vulnerável no mundo corporativo.

“O consumidor era um alvo. As empresas atacavam esse consumidor para manipulá-lo a comprar o produto. Vejo agora uma transição, essa ideia de alvo está caindo. O consumidor está virando um parceiro das empresas, e passam a dividir visões de mundo”, explicou Gleiser.

Muitas empresas, como a cadeia Burger King, já estão desenvolvendo essa nova relação como o consumidor, lançando produtos para vegetarianos, por exemplo. Outro exemplo é a indústria automotiva. Algumas montadoras já se prepararam para eliminar veículos movidos a gasolina ou gás, que serão substituídos por modelos elétricos ou movidos por células de hidrogênio.

Automação e inteligência artificial

Provocado pela jornalista, Gleiser fez um exercício de projeção realística do futuro em que, cada vez mais, a automação estará inserida no mercado de trabalho, com a presença da inteligência artificial fraca. Segundo o cientista, esse tipo de inteligência artificial é usado para lidar com dados numa proporção exponencial, que foge à capacidade humana, o que se conhece como o Big Data.

“A automação vai fazer, cada vez mais, parte do mercado de trabalho, redefinindo-o. Essa redefiniçao vai caminhar na direção do mundo digital. As universidades e centros de formação para profissionais terão de se atualizar para preparar as pessoas para esse novo mercado de trabalho.”, disse.

Essa transição para um cenário mais automatizado também tem um lado ético, na visão de Gleiser. Ele citou o mercado dos Estados Unidos, em que há mais de 4 milhões de caminhoneiros e cerca de 500 mil motoristas de ônibus escolares que correm o risco de perderem seus empregos por conta dos veículos automatizados.

“Há um lado ético nisso, por parte das empresas que trabalham com essa parte de inteligência artificial na indústria automotiva. Temos de criar mecanismos de retreinamento desses motoristas, que podem passar por processos de depressão. Se a vida perde sentido, eles perdem sua dignidade como seres humanos”, observou.

No contexto dessas visões transformadoras do mercado de trabalho, Gleiser se permitiu “viajar na maionese”, como ele mesmo definiu, chamando atenção para o futuro da inteligência artificial. Ele fez um exercício de extrapolação da inteligência artificial forte.

“Muita gente inteligente está falando de outro tipo de inteligência artificial. Não aquela que é capaz de integrar dados e conhecimento e sugerir um diagnóstico para um médico, ou robôs que fazem uma cirurgia. Mas a inteligência presente em uma máquina que pode criar novos algoritmos, novos problemas, criar arte. Esse tipo de máquina pode desenvolver uma consciência? E que tipo de consciência será?”, questionou Gleiser.

Essa inteligência artificial forte poderia ser, na visão de muitos cientistas, a última invenção humana, porque ela poderia considerar os humanos ineficientes e querer eliminá-los. Para Gleiser, ainda estamos longe dessa realidade, porém a preocupação ética não pode ser descartada.

“Não queremos criar uma máquina que potencialmente possa nos destruir. Queremos criar uma máquina que vai nos ajudar a crescer como espécie. É muito mais legal pensar na integração das tecnologias digitais como o ser humano do que desenvolver uma tecnologia que seja capaz de suplantar nossa existência no planeta.”