Gleiser alerta: quanto mais ofendermos a biosfera, mais pandemias vão surgir

Para o cientista, cada indivíduo deve assumir seu papel transformador e retomar a relação com o planeta para um futuro viável.

Nos próximos 20, 30 ou 40 anos, os seres humanos precisam acordar e tomar as rédeas do futuro na mão, porque não apenas o futuro dos humanos está em jogo, mas o futuro de toda uma rede de vida, da biosfera. O alerta foi do físico e astrônomo Marcelo Gleiser durante sua apresentação na sessão Keynote do segundo dia do SAP NOW 2020.  “Quanto mais ofendermos essa biosfera, mais vamos sofrer as consequências disso, mais pandemias e secas vão surgir, mais problemas climáticos, porque esse desequilíbrio ecológico que estamos criando é insustentável”, afirmou Gleiser.

Para o cientista, a humanidade está aprendendo que a Terra é um planeta com propriedades muito raras e que favorecem a existência de vida complexa. “Durante 3,5 bilhões de anos, só existiam amebas, bactérias. O advento da vida multicelular, com o surgimento dos dinossauros, gorilas, lagartos, homo sapiens é muito recente. Os planetas precisam de muito tempo para que a vida possa se tornar mais complexa”, explicou Gleiser.

O ser humano, de acordo com ele, é um único ser com capacidade cognitiva e intelectual de entender isso e fazer indagações sobre a própria existência. Por essa questão, voltamos a ter um protagonismo, mas não aquele que se pensava antes de o astrônomo Nicolau Copérnico provar que o ser humano não era o centro do universo, no século 16.

“Não voltamos a ser o centro geométrico, mas somos agora o centro moral e ético do universo. Se existem outras inteligências, não sabemos ainda, mas temos a capacidade cognitiva de compreender o que fazer para preservar a vida. Temos que criar uma nova moral, uma ética cósmica, em que nós, seres humanos, passamos de destruidores da vida para guardiões da vida”, observou Gleiser.

De acordo com o cientista, essa perspectiva que vem dos astros, mas se volta para o centro da humanidade, é essencial no século 21. Ele alerta que “caso não comecemos a pensar dessa forma, vamos realmente comprometer o futuro dos nossos filhos”. Nessa perspectiva, cada pessoa tem um papel a cumprir como indivíduo, devendo ser um canal de transformação para redefinir a visão de mundo.

Ao fazer um paralelo com pandemias ocorridas em outros períodos da História, como a peste negra, no século 14, e a gripe espanhola, no início do século 20, Gleiser disse que viveremos uma “renascença” em breve.

“Grandes pandemias foram momentos de renovação da identidade humana. No século 14, após a peste negra, veio a Renascença. Depois da febre espanhola, passamos por um período de inovações em todas as artes. Essa pandemia vai ter o momento de renascença, a retomada da nossa relação com a natureza, que é sagrada. Sem a natureza, não sobrevivemos. Já a Terra vai continuar se os seres humanos desparecerem. Somos completamente dependentes do equilíbrio ecológico do planeta Terra”, detalhou Gleiser.

Nos últimos minutos de sua conversa com a jornalista Patricia Maldonado, Gleiser deixou uma mensagem otimista. Na contramão do catastrofismo, o cientista afirmou que cada um tem um papel crucial para transformar a visão de mundo. Isso passa por escolhas diárias, ao consumir alimentos, energia, optar por meios de transporte, preferir marcas e empresas.

“Quanto essas ações se multiplicam, isso faz a diferença para avançarmos. Se temos alguma moral nessa história, a moral é que cada ser humano é um agente de transformação. À medida que nos reinventamos, crescemos como seres humanos. Precisamos celebrar nossa humanidade e entender que vida tem um sentido maior que nós. Espero que possam traçar esse futuro para vocês, para as pessoas que estão ao seu lado, e, como vivemos de forma globalizada, para os bichos e a nossa mãe Terra”, finalizou Gleiser.